O que você pensaria de uma cidade com 40 quilômetros de arcadas, isto é, de calçadas cobertas, separadas do leito da rua por colunas nos mais diferentes e encantadores formatos?
O que você pensaria de uma cidade que tem a universidade mais antiga da Europa?
Como você imagina, dentro dessa cidade, uma feira internacional com centenas de países, milhares e milhares de livros para jovens e crianças, nos mais diferentes formatos, concepções gráficas, enredos, intenções e estilos? Ilustrações que são verdadeiros quadros artísticos, pop ups aos montões que fazem sair das páginas animais, pessoas, edifícios, situações, paisagens, flora e fauna extraordinárias?
Pois é, gente, descobri que o paraíso do livro infantil tem endereço: Bolonha, na Itália. Era a Feira do Livro Infantil de Bolonha 2010, evento para editores, autores, ilustradores e agentes literários, realizada de 26 a 29 de março passado. A Aymará esteve presente: cinco livros selecionados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil que ganharam espaço e visibilidade no estande e no catálogo da Fundação. Uma honra, um prêmio, um sinal de qualidade.
Selecionados foram Miguel Sanches Neto (“Um camponês na capital”), Samir Thomaz (“O cobrador que lia Heidegger”), Massao Simizo (“As quatro estações e outros haicais”), Eliana Yunes (“Tecendo um leitor: uma rede de fios cruzados”) e eu (“Sempreviva, a leitura”). Estivemos em importante companhia de Bartolomeu Campos Queirós, Lygia Bojunga, Ana Maria Machado, Roger Mello, Ângela Lago e outros bambas da literatura infantil e juvenil brasileira.
Muitos pavilhões, muitas editoras, livros aos milhares, centenas de pessoas circulando pelos corredores, parando nos estandes, olhando livros, fazendo negócios. Em cada parada, a pesquisa e a curiosidade eram satisfeitas: descobria-se ora uma narrativa surpreendente, ora uma ilustração de abrir os olhos, um formato inovador de livro ou de concepção gráfica. Passar pelos países e pelos continentes era questão de cruzar um corredor, de trocar de pavilhão, de voar ou navegar pelos estandes. Também muito livro sem novidade, que parecia a cópia do que já vimos e lemos em tempos e plagas brasileiras. Há leitores e consumidores para todo tipo de história, não é?
Prefiro noticiar o que mais me surpreendeu: você, que considera narrativas “longas e cansativas” uma história de 20 páginas, o que diria de um livro de 96 páginas (com algumas poucas ilustrações em preto e branco)destinado a uma criança de cinco anos??? Com que admiração, embasbacamento e um desesperado desejo de mais olhos você veria as ilustrações húngaras, um primor, uma surpresa, um conjunto de técnicas de artistas inspiradíssimos? Além disso, que mistério e desafio tentar ler os livros editados na China, na Coréia do Sul (país homenageado na Feira) e na África, com escritas desenhadas e inacessíveis aos analfabetizados nos idiomas?
Para quem ama livros, histórias, a beleza da arte humana e a vida, a Feira de Bolonha foi (e continuará sendo) um banquete sem igual. Por falar nisso, eu vinha trazendo alguns docinhos servidos no banquete, mas eles caíram no caminho (e se perderam no oceano Atlântico) . Restaram apenas os sabores da memória: aromáticos, dulcíssimos…
Marta Moraes da Costa
Diretora do Centro Pedagógico da Editora Aymará