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A LEITURA COMO ATO POLÍTICO

Postado por marta.costa às 07h29
1 de março de 2010

A proximidade das eleições e o discurso dos candidatos repõem no cotidiano palavras como saúde e educação. Se isso ocorre, é porque cada uma delas apresenta problemas graves a serem sanados, talvez no próximo mandato, talvez em data muito longínqua.

Sobre a saúde, as doenças do corpo exigem socorro imediato, afetam o presente e o futuro do indivíduo. Faltam médicos, remédios, recursos para tratamentos demorados. Paralelamente, pesquisas e tecnologia apontam para a maior longevidade e diminuição das dores e temores. Paradoxo dos tempos em que vivemos: a dengue é endêmica mas a inseminação artificial resulta em milagres duplos, quádruplos, quíntuplos…

Já as doenças do espírito e da inteligência afetam o passado, o presente e, em especial, o futuro. Faltam professores e salários decentes, escolas adequadas, material didático avançado e eficaz. As teorias e experimentos converteram o espaço escolar em laboratório de sucessos e também de fracassos. A polêmica mais recente trata dos ciclos do ensino fundamental, em que a reprovação dos alunos por desempenho insuficiente foi abolida. Os defensores dessa posição pedagógica justificam-se afirmando que aprendizagem não é sinônimo de fracasso pessoal, que seria o sentimento experimentado pela criança em vista dessa reprovação. Já os adversários, horrorizam-se com o analfabetismo explícito de crianças e pré-adolescentes: “como é possível que Luisinhos /Aninhas, com 9, 10 ou 11 anos, sejam analfabetos na 4ª, 5ª ou 6ª série ?”

Mais adiante, no vestibular, a reclamação é generalizada. De um lado, candidatos buscam ingerir pílulas de conselhos e modelos de redação, rápidas, indolores, sem sabor. A redação maléfica, qual bruxa indesejada, agora obrigatória e eliminatória, figura como assombração. Do outro lado, professores a brandir ameaças, a distribuir conselhos, de caneta vermelha na mão, sangrando notas abaixo da linha de reprovação.

Na vida profissional, o exercício da escrita tem sempre a marca de Caim: quem pode, dela foge. E se justifica: “Escrevo mal porque leio pouco”, “é raro o tempo para ler”, “é a falta de hábito”, etc. etc Qualquer que seja a razão, existe uma quase inexistente troca de saberes/sabores através do texto escrito. Disso resulta a inteligência verbal desnutrida, a escrita tolhida, a comunicação e expressão de pensamentos e informações reduzidas ao nível da Idade da Pedra ( um tanto de grunhidos, rabiscos imagéticos, balbucio, incompletude).

As irmãs gêmeas, não idênticas e muito menos siamesas, que são a escrita e a leitura, expõem as pessoas em fraldas verbais. O infantilismo no trato com a linguagem, seja para escrever o mínimo de linhas e o mínimo de ideias, seja na compreensão de textos verbais, necessariamente curtos e simplificados, promove uma sociedade apática (sem a vitalidade da informação com suas contradições e profundidade), manejável ( satisfeita com os valores e conceitos ensinados por salvadores da pátria/comunicadores de plantão) e à mercê de arautos e clarins do terror tecnológico ( o e-book dará fim ao livro, a escrita dos chats acabará com a norma padrão da língua portuguesa).

         Para além da desinformação e do temor, a necessidade de discutir as questões relativas à leitura e escrita no âmbito de toda a sociedade pode esclarecer que papéis queremos desempenhar, enquanto país, no teatro da cultura e da cidadania.

Por que, estejamos conscientes, na sociedade do conhecimento, anunciada por todos os que estudam o presente para lançar previsões para o futuro, não haverá lugar para os analfabetos funcionais (aqueles que, com dificuldade, leem ou escrevem textos simplificados). A crise do emprego passa pela rala qualificação dos postulantes a um posto de trabalho. A crise educacional passa pelo desamor ao estudo e à leitura. A crise de cidadania passa pelo desconhecimento de normas básicas da civilização, pela desinformação, pela apatia decorrente da nenhuma informação qualificada.

São  muitos os aspectos a serem discutidos pela sociedade  – e pelos candidatos a cargos políticos – na área da leitura e da escrita, da informação e do conhecimento, da pesquisa e da tecnologia, da escola e da sociedade. E todos eles afetam o tecido social, com muita profundidade.

Mas o túnel tem distância determinada e acaba; então a luz do sol se impõe. Nós trabalhamos para que ela brilhe. Qualificamos o material e o professor que, por sua vez, qualifica a criança. Acreditamos que o estímulo à leitura pode nascer em qualquer canto: numa sala de aula equipada; na pobre morada da família de subúrbio; na criança que ainda não aprendeu a ler; naquela que lê sem gostar; no professor desamparado mas entusiasmado; na escola que briga pelo reconhecimento do bairro e do município; em todos aqueles professores que reinventam sua metodologia no cotidiano da prática; naqueles que insistem porque acreditam.

E o canto da cidade será nosso!

Marta Moraes da Costa

Diretora do Centro Pedagógico da  Editora Aymará

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Avaliação: inquietação recorrente na educação

Postado por Ana Julia Kloeppel às 14h51
6 de novembro de 2007Ana Julia Kloeppel

Conforme destacou Antoni Zabala [1], “(…) diferentes países e grupos de educadores mais inquietos se propõem formas de entender a avaliação que não se limitam à valoração dos resultados obtidos pelos alunos” , sabemos que as discussões e reflexões em torno da avaliação continuam acaloradas em todos os ambientes físicos, sociais e virtuais mobilizados pela educação.

Atualmente, com os resultados apresentados por sistemas de avaliação como Prova Brasil, Pisa e sistemas privados de avaliações – as chamadas avaliações institucionais – a questão adquire proporções e provoca inquietações ainda maiores.

Mesmo com essa preocupação, que inevitavelmente está voltada para  resultados – muitas vezes insatisfatórios –, o foco da avaliação precisa, essencialmente, contribuir para uma melhoria considerável da educação em nosso país, ou seja, dever ser uma estratégia significativa, entre outras, para favorecer qualitativamente (e por conseqüência quantitativamente) a educação, o processo ensino–aprendizagem, a auto-estima e a autonomia moral e intelectual de  professores e alunos.

Nesse sentido, uma avaliação coerente com as considerações expostas deve promover reflexão tanto por parte dos alunos sobre seu processo de aprendizagem, numa perspectiva de metacognição [2], quanto dos professores (bem como das escolas, redes de ensino e demais atores desse processo) sobre a ação pedagógica, adequando-a principalmente em termos de estratégias de aprendizagem, e considerando cada aluno como único, em um processo em que todos os elementos devem ser avaliados e regulados.

Portanto, a avaliação não pode ser excludente, uniformizadora e simplesmente seletiva e, sim, por seu caráter inquietador, geradora de novas aprendizagens. Deve partir, por exemplo, dos próprios indicadores apresentados pelos sistemas de avaliação, para não apenas levar os alunos a buscar recuperar a “nota”, mas professores e escola a recuperar a aprendizagem [3].

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[1] ZABALA, Antoni. A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: Artmed, 1998. p. 195.
[2] Segundo Flavell, metacognição é a capacidade dos indivíduos de monitorar e regular os próprios processos cognitivos.
[3] Idéia destacada por Celso Vasconcelos em Avaliar para crescer. Nova Escola on-line/ dez 2000.

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