A proximidade das eleições e o discurso dos candidatos repõem no cotidiano palavras como saúde e educação. Se isso ocorre, é porque cada uma delas apresenta problemas graves a serem sanados, talvez no próximo mandato, talvez em data muito longínqua.
Sobre a saúde, as doenças do corpo exigem socorro imediato, afetam o presente e o futuro do indivíduo. Faltam médicos, remédios, recursos para tratamentos demorados. Paralelamente, pesquisas e tecnologia apontam para a maior longevidade e diminuição das dores e temores. Paradoxo dos tempos em que vivemos: a dengue é endêmica mas a inseminação artificial resulta em milagres duplos, quádruplos, quíntuplos…
Já as doenças do espírito e da inteligência afetam o passado, o presente e, em especial, o futuro. Faltam professores e salários decentes, escolas adequadas, material didático avançado e eficaz. As teorias e experimentos converteram o espaço escolar em laboratório de sucessos e também de fracassos. A polêmica mais recente trata dos ciclos do ensino fundamental, em que a reprovação dos alunos por desempenho insuficiente foi abolida. Os defensores dessa posição pedagógica justificam-se afirmando que aprendizagem não é sinônimo de fracasso pessoal, que seria o sentimento experimentado pela criança em vista dessa reprovação. Já os adversários, horrorizam-se com o analfabetismo explícito de crianças e pré-adolescentes: “como é possível que Luisinhos /Aninhas, com 9, 10 ou 11 anos, sejam analfabetos na 4ª, 5ª ou 6ª série ?”
Mais adiante, no vestibular, a reclamação é generalizada. De um lado, candidatos buscam ingerir pílulas de conselhos e modelos de redação, rápidas, indolores, sem sabor. A redação maléfica, qual bruxa indesejada, agora obrigatória e eliminatória, figura como assombração. Do outro lado, professores a brandir ameaças, a distribuir conselhos, de caneta vermelha na mão, sangrando notas abaixo da linha de reprovação.
Na vida profissional, o exercício da escrita tem sempre a marca de Caim: quem pode, dela foge. E se justifica: “Escrevo mal porque leio pouco”, “é raro o tempo para ler”, “é a falta de hábito”, etc. etc Qualquer que seja a razão, existe uma quase inexistente troca de saberes/sabores através do texto escrito. Disso resulta a inteligência verbal desnutrida, a escrita tolhida, a comunicação e expressão de pensamentos e informações reduzidas ao nível da Idade da Pedra ( um tanto de grunhidos, rabiscos imagéticos, balbucio, incompletude).
As irmãs gêmeas, não idênticas e muito menos siamesas, que são a escrita e a leitura, expõem as pessoas em fraldas verbais. O infantilismo no trato com a linguagem, seja para escrever o mínimo de linhas e o mínimo de ideias, seja na compreensão de textos verbais, necessariamente curtos e simplificados, promove uma sociedade apática (sem a vitalidade da informação com suas contradições e profundidade), manejável ( satisfeita com os valores e conceitos ensinados por salvadores da pátria/comunicadores de plantão) e à mercê de arautos e clarins do terror tecnológico ( o e-book dará fim ao livro, a escrita dos chats acabará com a norma padrão da língua portuguesa).
Para além da desinformação e do temor, a necessidade de discutir as questões relativas à leitura e escrita no âmbito de toda a sociedade pode esclarecer que papéis queremos desempenhar, enquanto país, no teatro da cultura e da cidadania.
Por que, estejamos conscientes, na sociedade do conhecimento, anunciada por todos os que estudam o presente para lançar previsões para o futuro, não haverá lugar para os analfabetos funcionais (aqueles que, com dificuldade, leem ou escrevem textos simplificados). A crise do emprego passa pela rala qualificação dos postulantes a um posto de trabalho. A crise educacional passa pelo desamor ao estudo e à leitura. A crise de cidadania passa pelo desconhecimento de normas básicas da civilização, pela desinformação, pela apatia decorrente da nenhuma informação qualificada.
São muitos os aspectos a serem discutidos pela sociedade – e pelos candidatos a cargos políticos – na área da leitura e da escrita, da informação e do conhecimento, da pesquisa e da tecnologia, da escola e da sociedade. E todos eles afetam o tecido social, com muita profundidade.
Mas o túnel tem distância determinada e acaba; então a luz do sol se impõe. Nós trabalhamos para que ela brilhe. Qualificamos o material e o professor que, por sua vez, qualifica a criança. Acreditamos que o estímulo à leitura pode nascer em qualquer canto: numa sala de aula equipada; na pobre morada da família de subúrbio; na criança que ainda não aprendeu a ler; naquela que lê sem gostar; no professor desamparado mas entusiasmado; na escola que briga pelo reconhecimento do bairro e do município; em todos aqueles professores que reinventam sua metodologia no cotidiano da prática; naqueles que insistem porque acreditam.
E o canto da cidade será nosso!
Marta Moraes da Costa
Diretora do Centro Pedagógico da Editora Aymará